Em CIRÚRGICO, o artista Victor Grizzo revisita a história da anatomia enquanto campo de confluência entre arte e ciência, criando obras que transitam entre o rigor anatômico e a fabulação poética. Cada trabalho opera como uma incisão que revela, para além de músculos e ossos, as camadas de representação e construção cultural que definem o corpo como signo – um corpo que, na arte, deixa de ser apenas organismo para tornar-se linguagem e pensamento visual.

A mostra apresenta a série Cirurgias, com obras como Cirurgia para Bordadeiras, Cirurgia para Nadadores e Cirurgia para Pianistas. Nessas criações, Grizzo constrói anatomias de invenção que sugerem hibridizações entre o corpo humano e outras espécies, evocando tanto os atlas anatômicos do século XIX quanto imaginários protocientíficos fantásticos, como em Frankenstein. Seu trabalho convoca reflexões sobre mimese e fabulação na arte, tensionando os limites entre representação científica e invenção estética.

Utilizando acrílica, grafite e lápis de cor sobre papel algodão, o artista articula um vocabulário visual minucioso, que mescla precisão de traço, delicadeza técnica e densidade conceitual. E na Philos você lê com exclusividade o texto crítico de Mariana Leão, curadora da mostra:

A intersecção entre arte e ciência é muito clara na história da anatomia enquanto ciência moderna. A necessidade de representação visual para o registro e estudo da estrutura do corpo humano levava anatomistas a trabalhar em colaboração com artistas — ou a desenvolver, eles mesmos, essa habilidade. Como Andreas Vesalius, considerado pai da anatomia moderna, que iniciou a sistematização do estudo do corpo humano com suas próprias ilustrações. Por outro lado, a preocupação com a correta representação do corpo também tornava a disciplina fundamental para os artistas. Sempre lembrado, Leonardo Da Vinci realizou pesquisas anatômicas autodidatas para aprimorar seu trabalho. E, algum tempo depois, a anatomia passou a integrar o currículo das academias de belas artes, que prezavam pela fidedignidade da representação.

Em tempos de procedimentos cirúrgicos altamente tecnológicos e voltados a padrões de beleza uniformizados, Grizzo recorre aos recursos de outras espécies da natureza, sugerindo a hibridização entre o humano e outros seres. Com um vocabulário estético que remete a um imaginário protocientífico fantasioso – que ecoa o clássico Frankenstein – o artista explora livremente, com humor e criatividade, as infinitas possibilidades da invenção.

A exposição CIRÚRGICO reúne 18 obras originais que propõem, em conjunto, uma cartografia imaginária do corpo humano, revelando ao público tanto suas estruturas visíveis quanto as camadas subjetivas que nos constituem. As peças podem ser vistas no Museu de Anatomia Humana Prof. Alfonso Bovero, sob coordenação da Profª Dra. Silvia Lacchini, onde dialogam com o acervo científico do espaço e reforçam a potência da arte como instrumento de reflexão sobre a condição humana.

O artista Victor Grizzo.

Victor Grizzo (Jaú, 1992) é artista visual, escritor e educador. Licenciado e bacharel em História pela USP, explora em suas pinturas, desenhos e textos a anatomia, a memória e a literatura, criando narrativas que transitam entre o lúdico, o científico e o fantástico. Entre suas exposições, destacam-se Methamorphosis (Senac-Lapa Scipião), Interior em Mim (Casa de Cultura de Jaú) e sua participação em O Mundo de Tim Burton (MIS-SP). É autor dos livros Onde Moram os Ventos, Luz dos Olhos Meus e O Segredo que Habitava o Armário.

Mariana Leão possui mestrado em Estética e História da Arte pela USP, assim como bacharelado e licenciatura em História na mesma instituição. Sua trajetória inclui pesquisas voltadas à arte moderna e contemporânea, além de experiência em catalogação de coleções, produção e curadoria. Atualmente integra a equipe de gestão de coleções da Kura.


Serviço: Exposição CIRÚRGICO de Victor Grizzo, 16 de julho de 2025, das 13h às 16h, no Museu de Anatomia Humana Prof. Alfonso Bovero – ICB III, USP. Av. Prof. Lineu Prestes, 2415 – Cidade Universitária, Butantã, São Paulo/SP. Entrada gratuita

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